28 maio SKIAGRAFIA: o corpo em residência, entre sombras e encontros

Em 2026, o projecto SKIAGRAFIA, de AnaVitória, atravessa diferentes territórios em Portugal através de uma série de residências artísticas que se afirmam parte do processo. Mais do que um tempo de produção, trata-se de um percurso de escuta, onde o corpo se reativa em contacto com novas geografias, pessoas e realidades. Entre a tecnologia da luz e a matéria instável da sombra, a criação vai-se construindo como um espaço de experimentação partilhada, onde o encontro com o outro se torna matéria fundamental para a obra.

 

Durante o ano de 2026, vai fazer uma série de residências artísticas. O projeto exige um tempo de desenvolvimento e maturação longo?

Sim, não só por toda a questão da tecnologia necessária para projetar as sombras, mas sobretudo para que, a cada espaço habitado pelo meu corpo, eu possa me deparar com outros fantasmas, realidades, contornos e encontros que soprem em mim outros fluidos criativos. Reativar o corpo para uma nova travessia requer muita preparação. E eu não estou sozinha nessa busca. Há o Nuno Veiga que magistralmente desenha a trilha sonora desta travessia. Nesta trilha as vozes sobretudo de mulheres que dialogam e partilham comigo suas dores, medos, como Carmem Miranda para quem empresto meu corpo para que ela dance em mim sua fragilidade, suas quedas, seu cansaço, suas decepções… O que em vida ela não teve o direito de mostrar. E muitos outros fantasmas vão ocupando esta casa, feita de lençóis de linho bordados e suspensos, que hora foram chãos e território de amor, dor e solidão.

 

Esse trabalho é feito em conjunto com outras pessoas?

O Luís Moreira, por exemplo, é o arquiteto da luz que vem construindo e trabalhando comigo neste projeto e quem se dedica a criar, instalar e projetar os dispositivos de luz que projetarão os acontecimentos destas mulheres em seu contexto doméstico. Somos um duo e, portanto, precisamos de nos ir alinhando, descobrindo fendas, rasgando o tecido espaço-temporal para outros encontros poéticos. Lidar com a sombra é entrar em contato com uma matéria fugidia, que acaba nos provocando o interesse em acessar zonas de instabilidade e obscuridade da existência (supra)humana. Neste percurso tenho dado espaço para os animais, vegetais e minerais que me habitam também, não só criação com pessoas. Assim, emprestando meu corpo para que seus fantasmas dancem em mim, como bem nos lembrou Tatsumi Hijikata em seu animismo radical, onde forças, energias, formas, seres, carne, vida e morte operam em prol de uma empatia e expansão radical.  E neste percurso vou podendo criar alianças com outros materiais e reinos diferentes, para além da filiação só do gênero — pois o devir-outro é mais da ordem da aliança que se vai tecendo do que do lugar de origem. Neste sentido, busco um contágio que se prolifere e se hibridize com essa maturação.

 

Tem vindo a realizar diferentes residências artísticas em diferentes lugares de Portugal. O que procura nesses processos?

Os meus trabalhos vêm cada vez mais necessitando dessa partilha afetiva. Acho que levei muito tempo trabalhando sozinha em criações anteriores, e que de certa forma me isolava do convívio com o entorno e com a diferença. O meu estúdio sempre me pareceu um mundo onde eu poderia acessar tudo o que quisesse com a minha dança. Mas comecei aqui em Portugal a descobrir uma outra possibilidade de abertura e reencantamento com o outro, deixando-me afetar pelo entorno, pelas pessoas, suas histórias, suas vilas e cidades, seus problemas sociais, sua geografia, sua poesia. O contágio é necessário para relações potenciais de movimento e para a sensação de pertencimento. Os meus dois trabalhos anteriores foram construídos assim, de partilhas com mulheres do interior do país que vivem à margem da vida cultural das suas cidades, que são excluídas pela própria necessidade de sobrevivência como também pela falta de vontade pública de facilitar esses acessos e essas trocas.

 

De que forma esses encontros influenciam a obra final?

Esse convívio, a partir desses encontros, vendo seus corpos e ouvindo seus depoimentos, vem contaminando positivamente a minha criação, o meu corpo e a minha dança. Vou assim respondendo ao que emerge destes encontros e me responsabilizando pelo que vou apreendendo, tentando não fazer uma leitura clara, direta, objetiva, mas sim, opaca, embassada, na medida em que o véu da não certeza me dá mais margem de criação e deriva. Me dá mais margem para a inventividade e talvez alguma fabulação, porque não? Acredito que em SKIAGRAFIA esses encontros me mostrarão outros territórios fantasmáticos, outros corpos desejantes e outras realidades que na mesma medida da sua concretude, devem sustentar a sua fantasmática. Ao observar seus modos próprios de viver e mover já estou entrando em estado de criação e sendo suas sombras.

 

 

    

 

Projecto financiado por: República Portuguesa – Ministério da Cultura, Juventude e Desporto | DGARTES – Direção Geral da Artes

Apoios: Sekoia Artes Performativas, Estúdios Victor Cordon, Inestética-Palácio Sobralinho, Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Partícula Extravagante, Inshadow Festival, Associação Cardume- Trafaria, Eixo Residência e Espaço A Gráfica.

Foto: Bruno Veiga