04 maio SKIAGRAFIA – Uma Fantasmática do Corpo: uma performance que é investigação, memória e dança
SKIAGRAFIA – Uma Fantasmática do Corpo, de AnaVitória, nasce de um diálogo com as artistas plásticas portuguesas Lourdes Castro, Ana Vieira e Helena Almeida e propõe uma travessia pelo que ficou guardado na sombra. Um projeto que é, ao mesmo tempo, investigação, memória e dança.
Porquê dar corpo e movimento às sombras e à invisibilidade feminina destas três artistas?
As criações artísticas feitas por mulheres sempre tiveram em mim um forte efeito e ressonância afetiva. O que estas mulheres produziram a partir das suas histórias e experiências de vida inspira-me a olhar para a minha própria existência e a sua singularidade feminina. À sombra parece ser um lugar familiar para muitas de nós mulheres: da vida social, dos acontecimentos decisivos, das escolhas determinantes, das grandes conquistas, dos voos alçados de liberdade, desprendimento e desapego. À sombra nos colocaram em muitas das nossas histórias; à sombra nos impuseram um status de necessárias à manutenção da casa; à sombra nos calaram e não nos deram a oportunidade de dar a nossa perspetiva feminina sobre muitas questões, inclusive sobre assuntos familiares. O patriarcado oprimiu o lugar da mulher, mesmo e sobretudo em casa. Mas é aí que nos surpreendemos quando podemos olhar para as nossas sombras e nos assombrar com o que elas podem nos revelar: seus delírios, sonhos, pesadelos, desejos, segredos, devires… Estas três artistas tiveram a coragem de revelar as suas sombras ao mundo e fazer delas um caminho para a autonomia e a liberdade.
Como é que se transforma um conceito visual e estático, como o desenho da sombra, num corpo que se move, que tem gestualidade em palco?
Justamente pela força reprimida do desejo e pela presença da ausência. O movimento é um motor potente que faz mover campos sensórios e sensíveis da condição humana. Um traço, uma linha, uma imagem ainda que opaca nos diz muito da sua conceção, e nós também lhes devolvemos muito sentido quando as olhamos, compondo com elas outras leituras. As sombras dessas artistas não dançavam, pois não era desse lugar que elas falavam, mas eu pude ver dança em cada gesto ali colocado, em cada traço, em cada imagem. E foi o próprio mover a partir dessas imagens que soprou vida em movimento, que libertou o traço e o projetou no espaço, que o carnalizou. “A matéria-prima da sombra é a escuridão”, o que significa buscar revelar os silêncios, a solidão, a ausência mesmo de si em desaparição. Ao expor a sombra, expomos a sua ausência, e o desejo é a presença de uma ausência em nós. O mito fundador do desenho está diretamente ligado à sombra e ao gesto feminino na tentativa de manter a presença do amado e a sua memória carregada de afeto. Neste sentido, estarei mobilizando gestualidades, ações, afetos e movimentos poéticos.
De que forma esta performance interroga o ato de viver e os jogos de ocultação a que as mulheres são ou foram submetidas?
Podendo revelar os seus fantasmas. Será a partir da ideia de um lugar da espectralidade (ainda que não seja bonita essa imagem) que tentarei dar acesso a uma dimensão que nos constitui: a da monstruosidade que vai se criando quando não se tem como se expressar, quando o resguardar é a possibilidade mais viável para se viver. Neste espaço de opacidade, o que se pode revelar daquilo que alimentamos caladas, sozinhas? A ideia de mostrar vem da própria etimologia da palavra “monstro” — monstrare —, que também pode ser lida como aquilo que “indica um olhar” ou “prescreve a via a seguir”. De qualquer forma, o monstro mostra o “irreal verdadeiro”, e o transbordamento que ele veicula acaba por ultrapassar o seu conteúdo representado, para além da sua origem. Um outro eu que se revela a partir da sua visceralidade, que se organiza dentro de você como uma obscenidade orgânica. Não é só sobre contorno — este é sem dúvida um fato visível, quase palpável —, mas sobre o carregar em si um buraco negro, e o que está hospedado em seu fundo, pode ser desfraldado, mostrado pelo avesso. Penso em quais imaginários, quais vozes, gritos, sussurros, uivos, gestos contidos e sufocados o monstro pode nos revelar desse ocultamento?
Fotos: Bruno Veiga
Projecto financiado por: República Portuguesa – Ministério da Cultura, Juventude e Desporto | DGARTES – Direção Geral da Artes
Apoios: Sekoia Artes Performativas, Estúdios Victor Cordon, Inestética-Palácio Sobralinho, Partícula Extravagante, Inshadow Festival, Associação Cardume- Trafaria, Eixo Residência e Espaço A Gráfica.