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PULSÃO
DO LAÇO

A Poética das Pulsões

Afirma um poema de Mário Cesariny: “o meu corpo se transfigura / e toca o seu próprio elemento / num corpo que já não é seu”. Tratam esses versos de um processo de projeção simbólica, por meio do qual se torna possível que uma superfície corporal faça, de outra, um espelho; processo cuja efetivação demanda, fundamentalmente, uma experiência que faculte o reconhecimento. No caso do poema de Cesariny, a transfiguração corporal − que pode ser entendida, metaforicamente, como uma variação condicionada por uma disposição existencial específica − dá-se sob os desígnios de Eros: trata-se da culminância de uma dilatação da intimidade, a tal ponto estendida que a presença do outro é projetada, de modo espontâneo, pelo corpo que a demanda. Não obstante, de outras formas é possível estabelecer um vínculo entre diferentes corpos; demonstra-o Ana Vitória − que, em Pulsão do Laço, reconfigura essa relação num sentido criativo, simultaneamente problematizando os próprios fundamentos da arte.

Henrique Marques-Samyn

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Com efeito, Ana Vitória nos apresenta uma obra em que, em última instância, indaga pela possibilidade da dança. É claro que esse questionamento seria desprovido de sentido, caso não se efetivasse do modo adequado; de fato, haveria o risco de que tudo resultasse em malogro, não fosse a indagação realizada por alguém que dispõe dos meios necessários para formulá-la − alguém como Ana Vitória, cuja trajetória na dança vem atestando seu lugar de destaque no cenário contemporâneo.

A primeira questão problematizada em Pulsão do Laço está relacionada ao espaço. Ao apresentar-nos um corpo imóvel, atado às paredes, enseja a indagação: haverá dança? Como poderá dançar este corpo, enredado na trama visível que, aparentemente, tolhe cada movimento? Sabemos, é claro, que de algum modo haverá dança; não obstante, o estranhamento suscitado pela situação inicial tem a função de desnaturalizar a dança enquanto ato. Tipicamente, talvez estivéssemos diante de um palco vazio, perante o qual aguardaríamos o início do espetáculo; talvez encontrássemos o(s) corpo(s) estático(s), mas num cenário adequado à dança − isso é, com espaços livres, abertos ao movimento. Aqui, a situação é outra: há o corpo, há o espaço, mas parece haver uma insuperável tensão entre ambos.

A dança só se torna possível a partir de um convite. “Me ajuda a dançar?”, pergunta Ana Vitória ao público, dando assim início a um duplo processo: primeiro, a desconstrução do espaço − por parte daqueles que, arrancando das paredes as fitas que atavam o corpo, tratarão de criar o espaço necessário à dança; segundo, a negociação de movimentos − uma vez que o corpo permanece sujeito à força e à ação dos que, retendo os laços, determinarão os gestos possíveis. Claro está que, nessas condições, a dança pode realizar-se ou não: é possível que o corpo não possa mover-se, asfixiado por presenças excessivamente próximas e dominadoras, por forças restritivas, por tensões incontornáveis; ou, no caso oposto, que a dança se efetive como uma conjugação de esforços, gerando uma harmonia condicionada por uma multiplicidade de movimentos imprevisíveis.

A obra de Ana Vitória visa, precisamente, a um agenciamento de pulsões corporais que, esteticamente arranjadas, convirjam para uma experiência artística. No caso em questão, o tempo ‘pulsão’ não precisa ser entendido num sentido específico ou restritivo; é suficiente resgatar a sua raiz etimológica − o verbo latino pulso, -are, que registra, como acepções possíveis, ‘impelir’, ‘expulsar’, ‘vibrar’. A poética de pulsões concebida por Ana Vitória se erige a partir de corpos autônomos, que se movem a partir de forças não sujeitas a uma solicitação prévia; a eles é resguardado o pleno direito ao movimento − que vibrem, que deem vazão aos seus impulsos: apenas a partir dessa liberdade fundamental pode Ana Vitória lidar com a imprevisibilidade que, enlaçada no ato criativo, gera a dança. Para a poética das pulsões, a singularidade é essencial.
Observe-se que, embora tudo isso tenha lugar no espaço físico, trata-se do reflexo de um processo que ocorre em nível cognitivo. Com efeito, a negociação dos corpos espelha uma negociação de significados que constitui a própria dança − mais que isso: constitui todas as formas de arte, enquanto eventos comunicativos. Para que a arte seja possível, o jogo de sentidos proposto pelo artista demanda um acolhimento da parte de quem se situa diante da obra: é preciso que esse, de algum modo, torne-se um participante da experiência artística, permitindo-se recriá-la a partir de seu repertório particular de significações. Se isso não ocorre, emerge a incompreensão que bloqueia a sensibilidade; a arte resulta em malogro − seja por um fracasso do artista, seja por uma hostilidade do público. Não obstante, quando a negociação é bem sucedida, da arte emerge a experiência cuja singularidade é produzida pela cumplicidade entre artista e assistência. O que Ana Vitória faz é tornar concreto esse intercâmbio que, em geral, permanece confinado ao invisível.

O fato de serem vermelhos os laços que unem Ana Vitória ao público-atuante, no ato da dança, também pode ser percebido de um modo simbólico: a cor remete ao sangue, traduzindo o tecido corporal num tecido material que enlaça os corpos, estabelecendo uma diferenciada relação de intimidade. Ao convidar o público ao espaço em que a dança se efetiva, o que faz Ana Vitória é propiciar relações inusitadas, criando um lugar aberto à manifestação do afeto − que, por sua vez, manifesta-se plasticamente através do gesto, que reconfigura (tornando artística) a relação entre o público-atuante e o corpo que dança.

A ruptura, contudo, é inevitável. Ana Vitória guarda, secretamente, uma tesoura: é com ela que rompe os laços, encerrando a experiência que ensejara. Trata-se de algo necessário, já que a devolução ao cotidiano não pode ser permanentemente adiada. Interromper a negociação, entretanto, não implica encerrar o ato simbólico: esse, internalizado pelo público-atuante (num processo ainda mais profundo, precisamente pelo papel ativo que lhe foi atribuído), permanece registrado − não apenas na memória, mas também na superfície corporal, precisamente pela participação no gesto criador. Uma vez partícipes da dança, as pulsões do corpo não a abandonam: secretamente, continuam a repeti-la − tornando perpétuo o laço com que as uniu Ana Vitória.

Ficha Técnica

Pulsão do Laço
Estréia nacional 2014
Instalação Performática de ANA VITÓRIA

Criação, Instalação e Performance – Ana Vitória
Desenho de Luz – Renato Mangolin
Figurino – Ana Vitória
TrilhaSonora organizada por Ana Vitória – Jonh Cage, Grupo Anima, Björk e Meredith Monk.
Vídeo Instalação – Ana Vitória e Renato Mangolin
Fotografia – Renato Mangolin
Programação Visual – Karin Palhano
Realização – Iroco Produções Artísticas