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AFINAL

o que há por trás
da coisa corporal ?

Sobre Ana Vitória

No recente trabalho de Ana Vitória, onde ela amplia o entendimento sobre a presença corpórea no mundo através das relações de sua sensibilidade com o raciocínio plástico de Lygia Clark, vemos um corpo – o seu – que se esmera no detalhamento sutil de movimentos, só por ela definidos, que revelam a maestria e a autenticidade do seu fazer. Em 3 momentos do espetáculo ela impregna pontualmente o lugar com sua eficácia poética:
-Ao arrastar-se do círculo à cadeira: só Ana Vitória sabe realizar aquele
deslocamento, no desdobrar miúdo e tenso da musculatura de pernas e
braços ritmados pela sua paixão pelo dançar.
-Ao fazer a cadeira girar, num esforço de quase girar o mundo.
-Ao encerrar sua presença em cena, no desalinho leve e suave de braços que se elevam e desfazem a matéria.
Somente sua expressão os permite existir: estes 3 instantes inconfundíveis de sua fala.
Tudo mais, que reflete suas escolhas e que são tão bem idealizados e realizados pelos atributos do som, da luz e dos artefatos cênicos, se mostra como um vasto campo de circunstâncias que lá estão para
acolher o único e o inusitado: o vigor adestrado do corpo que, físico, torna-se símbolo, logo linguagem.

Iole de Freitas
Artista Plástica
Ana Vitória, em seu novo trabalho “Afinal o que há por trás da coisa corporal?”, realiza uma trajetória inspirada em seu diálogo com Lygia Clark, produzindo uma dimensão estética em que forma e matéria se tornam operadores para a desconstrução do lugar comum.
No desenvolvimento de seu experimento, podemos acompanhar provocações trazidas por Lygia ao pensamento contemporâneo. Conduzido a partir do ovo, – idéia carregada de afecções onde o mundo do sem forma surge como objeto tomado em sua concretude iluminada -, o mais recente trabalho de Ana Vitória nos convida a permitir que o reencontro, como experiencia intensiva, viabilize o transformar das formas.

 

A disposição da cena entre espectador e artista problematiza a perspectiva. Esta proposição possibilita que o campo perceptivo aumente pela tridimensionalidade, na medida em que a obra, ao multiplicar sua potencia de deslocamento, consegue se estender no espaço entre de forma a ampliar, para o observador, a diversidade de modos de captar a partir de diferentes modos de se
afetar. Ao permitir que o espectador faça parte da obra, Ana Vitória não traça um destino fechado por onde a obra deva seguir, oferecendo-nos a chance de retirar as barreiras que normalmente delimitam o início e o final de uma obra de arte.
Com a questão proposta no título, a artista busca elaborar um campo vibratório onde dispersão-forma-dispersão sejam entrevistas. Entrever no sentido de experienciar o entre, o intervalo, colocando em suspenso o já codificado, revelando que a forma é o devir das forças. Por que o corpo? É justo na dimensão das forças, do campo intensivo, sensível, campo que antecede as formas, pré-individual, que é evocada, ao nomear seu trabalho, a idéia de Corpo sem Órgãos (CsO) inscrita no ovo. Retirar o olhar do campo já representado só se faz possível na produção de um CsO como nos dizem Deleuze e Guattari em “Como criar para si um Corpo sem Órgãos”, campo fluido, viabilizador das deformações necessárias para a captação do novo.

Passamos então, de uma oposição estática da forma e da matéria a uma zona de dimensão média, energética, molecular, que permite pensar uma matéria energética em movimento, portadora de singularidade ou hecceidade, que são formas implícitas que se combinam com processos de deformações.
A arte realizada neste trabalho de Ana consiste em seguir os fluxos da matéria, consiste em ofertar à sensação a possibilidade de captar as forças invisíveis, mostrar o momento de metamorfose. Ao buscar no corpo a marca do tempo, a artista revela que a eternidade, como matéria em movimento e não como vazio transcendente, aponta para a vida como obra de arte, massa sensorial produto de experimentação, onde memória e desejo compõem as atualizações existenciais.

Hélia Borges

Ficha Técnica

“Afinal o que há por trás da coisa corporal ?”

 

Estréia nacional 2010
Instalação Performática de ANA VITÓRIA

 

Criação e Performance – Ana Vitória
Ambientação – Sérgio Marimba
Desenho de Luz – Milton Giglio
Roupa Band-aid – Cláudia Diniz
Confeção – Lenny
Visagismo – Rose Verçosa
Consultoria Teatral – Suzana Saldanha
Trilha Sonora organizada por Ana Vitória -com Smetak, Luiz
Gonzaga, Armand Amar e Bizet.
Desenho de som – Michael Sexauer
Fotografia – Renato Mangolin
Vídeo Dança – Ana Vitória e Rodrigo Godim
Programação Visual – Vanderlei Lopes e Karin Palhano
Assessoria de Comunicação – Meio e Imagem
Produção – Neco FX
Realização – Iroco Produções Artísticas
www.anavitoria.com.br

Agradecimentos

À Minha Mãe Edvalda Bomfim

 

Amin Murad, Angel Vianna, Adriana Rattes, Aninha Franco, Alessandra Clark, Andrea Chiessorin, Associação Cultural “O Mundo de Lygia Clark”, Eva Doris, Glória Maria, Helena Lustosa, Ilka Nazaré, Jom Tob Azulay, Karen Brustolin, Kika Freire, Lúcia Rodrigues, Lenny Niemeyer, Maurício Agnelli, Maria Alves de Lima, Marcelle Piton, Suely Rolnik, Suzy Muniz e Silvia Soter.

 

* título autorizado do pela autora Suely Rolnik do seu texto “Afinal o que há por trás da coisa corporal?”, publicado no catálogo Lygia Clark, da obra ao acontecimento. Somos o molde – a voce cabe o sopro (editado em colaboração com Corinne Diserens para acompanhar a exposição no Musée de Beaux Arts de Nantes e na Pinacoteca do Estado de São Paulo).

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